Filosofia,literatura e outros...

Acerca de mim

Jornalismo U.F.Bahia/ Filosofia U.N.Lisboa/ Campeã Brasileira de Vela(Laser)/Nasci no Brasil(Bahia). Morei em Salvador, São Paulo, Cambridge, Ibiza e Lisboa.Autora de"O Caminho do Mar", Ilustração: Calasans Neto, ed.P555, Salvador-Ba,2004. Tenho três gatos:Homero, Bocage e Clarice(Lispector). Signo de Touro, ascendente em Leão, lua em Peixes.Doze e meio por cento de Sangue Índio(BR), a melhor parte de mim.

sexta-feira, julho 06, 2007


O que é o verão?
Foto: Anabela Fragoso

segunda-feira, junho 18, 2007


ATAI ULISSES AO MASTRO!!
ANTROPOFAGIA TROPICAL

VI

Ele gostava de provocá-la até ao ponto de aproximar-se e olhar demoradamente nos olhos dela, olhar que ela absorveu devolvendo-lhe um sorriso de comunidade e satisfação que nele promoveu suspiros. Ela encontrou uma maneira de informá-lo da frequência do pensamento, mas ele não esteve a altura da exposição, da situação. A complexidade potencializou-se, e todo o aprendizado fora mandado para a reciclagem e começar do zero o que, de facto, já era intenso, dificilmente se harmonizaria. Os momentos degradaram-se e o sentimento crescente perdera a almofada da convicção feliz. Ele forçava uma comunicação quase desesperada, que de facto alcançava o seu receptor, mas não o retirava de um buraco da emoção escurecida pelos acontecimentos. A beleza partira-se aos bocados, e num gesto de oração, ela apanhava os cacos e submetia-se a uma remissão simbólica ao perdido. Tudo tinha se modificado e a estranheza voltava-se para o exterior inóspito. A escuridão era desconsoladora e promovia um questionamento duro, não desejado, que se impunha, como uma acusação num tribunal.
Ninguém sai incólume das estonteantes forças secretas da natureza. Estas exercem seus poderes de modo tal, que promovem uma anarquia no sistema fisiológico elementar do organismo, a que ela não se tornou imune. Um dia teve uma paragem de digestão, consequência de emoções que ao sabor de suas energias mal administradas acarretam danos somatizados pelo instante arrogante. Passou a ter medo de comer, mas nem por isso perdeu muito peso, comia pouco e amiúde, pois a fome junto com o sem sentido da situação a devorava em inquietação desveladora de uma direcção fluida que pudesse vir a se apresentar. A recuperação, sendo lenta, dá tempo ao pensamento a se configurar numa melodia promotora de uma fusão mediada na saudade, na carência. Sonhara com a fusão total, pela fricção do tacto, a sofisticação do olfacto, o prazer do paladar autenticado na visão redentora, ao som da actividade de tambores de algum terreiro de candomblé esquecido na memória. Um outro dia, e desta feita sem a mínima capacidade de atenção proveniente da sequência afectiva de contratempos, não vendo um buraco, torceu um pé, ao fim de atravessar uma avenida bem transitada. Vinha distraída a pensar nele e o momento da torção provocou uma dor violenta levando-a ao chão, que com dificuldade soergueu-se, com um carro à frente, e alcançando a calçada sentou-se num banco de jardim. Pulando sobre um único pé, pôde parar e tentar avaliar a situação. Mas a dor intensa escureceu-lhe os olhos e quando deu conta de si estava caída com a cara agarrada as pedras, e acossada de súbita vergonha levantou-se ainda tonta, de volta para o banco. Suspeitava da brevidade do desmaio, alguns segundos, pois ninguém a rodeava, e permaneceu ali mais um tempo, como quem aprecia a paisagem, bebeu água e direccionou-se para o auto-carro. Pensou que talvez na sua primeira encarnação, teria vindo ao mundo na pele do primeiro filósofo, Tales, que distraído, caíra num buraco, facto que transformou sua criada famosa pelo riso ao amo. O que teria acontecido à criada? Procurou-a a volta e ponderou que a sua fama a esgotara, e teria perdido a razão da sua existência. Hoje talvez se ria de outras coisas, como do ordenado! Ele, por sua vez, também atarantava-se nos gestos mais corriqueiros, como aconteceu certa vez, quando fechara a porta de casa com a chave dentro e, atrasando-se para os seus compromissos, decidiu resolver a situação de um modo insólito. Tocou a campanhia do vizinho de baixo e explicando-lhe a situação, obtivera a permissão para, através da varanda, saltar como um macaco para a sua. Movimento que punha a prova a capacidade de seus músculos, pois com um pulo, segurava-se à sacada da sua casa, mas ainda faltava fazer subir o seu corpo, o que implicava força. Com a sua habilidade conseguira o seu intento recuperando a chave e julgava pertinente que ela estivesse presente e pudesse testemunhar a sua coragem, sua flexibilidade corporal, e orgulhoso de sua destreza, dedicava-lhe o sucesso. E fora tudo o que a natureza oferecia aos falsos amantes: contratempos. Ofereceram um ao outro macacadas, desgostos e ciladas. Hoje continuam dois desconhecidos.
FIM

terça-feira, junho 12, 2007



ANTROPOFAGIA TROPICAL

V


Parada, notara uma sombra que atravessava uma vidraça. Ele a olhava há alguns segundos e ela por acaso descobria seus aposentos literários e espantava-se com a quantidade de reinos desconhecidos no seu percurso quotidiano. Há muitos anos frequentava aquele lugar, ocupando com naturalidade aquele espaço que era já tão seu e não se lembrava de algum dia o ter visto, se ele ali agora enquanto sombra já a conheceria ou não. Não sabia o que pensar sob as restrições que acompanham cada vida em particular, que nada mais é que uma pequena clareira movimentando-se numa escuridão. Ter ali passado muitos dias e durante muitos anos não os fazia velhos amigos. Como se a vida, enquanto reservatório, guardasse sempre e no mesmo lugar surpreendentes novidades, coletes salva-vidas e botes contra o iminente tédio. O amor a que se aspira no desenrolar de uma paixão é uma ponte. Numa das vezes que se encontraram diante de si próprios pela presença do outro, inconscientemente, padeciam de uma sensibilidade já acumulada, treinada na leitura de pequenos gestos, e sob qualquer variação de atitude, uma modificação fisiológica desencadeava uma excitação nova, inesperada, desconcertante, promotora de embaraço. Deu-se uma recolha mútua, parte a parte, enquanto ganhavam tempo para integrar novos dados que a natureza oferece como um bónus aos que devem entregar-se em paixão, no consumo combustível dos corpos, onde a química justifica a sua existência. A confusão ia-se dissipando em momentos de clareza, e a necessidade solidificava-se na consciência do estado actual em que a fruição chamava os elementos do desejo mútuo, que inertes nada sabiam dar início, olhando-se simplesmente, sem poder ainda dissolver a inadequação de uma temporalidade anunciada. Haverá uma causalidade nas impressões que empurra o momento futuro para o presente actual e o manipula, brincando com uma maldade elementar, aquilo mesmo que indefeso pede cuidados para crescer robusto.





segunda-feira, junho 11, 2007

Lisboa,1993.

quarta-feira, junho 06, 2007

Suiça, verão 1980.
ANTROPOFAGIA TROPICAL

IV

Os dias passam a voar e os apaixonados em vésperas de si próprios nem sempre sabem fazer atrasar e moldar o tempo às suas disposições, pois entre o amor e a vida pode haver muito espaço e os contratempos têm arestas promotoras de outros atritos e nós que tomam proporções indesejáveis pela ausência, que deixam o toque fora das fracções do abraço, do beijo. Cada partida representava uma demora de sofrimento esgarçado, sem direito a despedida, enquanto fingiam, um ao outro, nada levar consigo de importante enquanto esparsos olhares traíam a mentira quase adolescente e pouco sustentável, no dobrar do lance de escadas que se enrolando para a esquerda ,ao modo de uma serpente, fugia de um destino que mete medo. Mais adiante olhou por um ângulo inferior em degraus obtendo sobre si paralela visão de pernas sob calças que avançavam sobre o presente. Recompondo a sobriedade terminava os degraus com passo lento, mostrando o pescoço tenso, a cabeça inclinada, pretendendo alcançar o nível do solo ainda que com determinada frustração prolongada. Ela examinava o que acontecia sem compreender a violência impregnante da distância, da força contrária ao óbvio, contrária a sua movimentação natural que a convidava a segui-lo, simplesmente caminhar ao lado dele, como se isto fosse lógico.
Restava a visão dos pardais cruzando o pátio em voos baixos a procura de farelos de bolos e esses chamavam-na a atenção perdida no vazio da perplexidade muda. Observava o alarido das crias em sua aprendizagem de autonomia. A responsabilidade educativa das mães pássaro era o único espectáculo possível, abstraindo-se de tudo o mais à sua volta, continuava a fixar-se nos pardais que se movimentavam sem a hesitação de comer ou levar no bico. Levar no bico a migalha encontrada, depois de tanto procurar na actividade semi-circular das cabeças, era o que se permitia os adultos que cuidavam ninhos, sendo imediatamente imitados pelas crias. A ansiedade encontrava um ancoradouro sólido e distribuía o cansaço inerente, trazendo o peso da iminente inquietação amalgamada em melancolia arrastada. Arrastada pela lentidão do tempo e socorrida pelas ideias estéticas que em letras de forma preenchem o papel sagrado na ânsia de concertar o momento disperso. A literatura encontra-se com a filosofia e na magia dos dedos obsessivos ao teclado, uma música se despeja em capítulos e o sentimento toma novas formas apertadas, como na contenção própria da arte dos bonsais.

sexta-feira, junho 01, 2007

ANTROPOFAGIA TROPICAL

III

Lá fora o espaço aéreo estava composto por nuvens cortadas por andorinhas em revoada, o vento soprava alto com orgulho nímbico a anunciar a possibilidade de chuva próxima. O sol se opunha a lua, que embora frágil, permanecia na abóbada ao meio-dia, numa confluência de fenómenos perceptíveis ao olho humano, embora naquele momento só ele se encontrasse voltado para o cenário, mas alheio a este, pois que absorvido pela trama dos acontecimentos. Ela notara a confluência de imagens a que ele sujeitara-se e desajeitadamente sentiu-se no centro do universo, enquanto ele dava passos lentos, estudados, calculando a distância na proximidade material aflitivamente indisponível. Encontrava conscientemente o canto em que pudesse afastar-se para sofrer a atracção em novo ângulo e suspeitou da possibilidade de alguma macumba. Felicitou o próprio destino e esboçou um sorriso de Alexandre, o Grande. O silêncio dominava as testemunhas imunes ao acontecimento destinando-as à paisagem. A imaginação dela confluía com o interesse acrobata indiferente ao cansaço que forjava um único campo magnético que a ambos protegia. Doravante a vida ganharia uma nova textura a partir de uma tessitura que a quatro mãos conquistava o tempo oportuno das sensações variegadas, a revolver o mais próprio de cada um deles. Às vezes tinham que se olhar um ao outro, promovendo a cumplicidade no desconhecido e tudo se tornava explícito e aos poucos aprendiam a reverenciar o anunciado vencedor. As palestras sucederam-se com regularidade e esperar os esparsos momentos de tocarem-se com as retinas era a regra dos dias, escamoteando a sondante omnipotência em encontros aparentemente casuais. Facto que resvalava para regiões misteriosas da esfera entre o profano e o sagrado e os dotava de uma atmosfera em crescente poder que, ora assumia-se enquanto distinta, ora enquanto caótica. A comunicação pelo silêncio era mágica e a palavra começava a se estabelecer em fragmentos de espanto que partia do sensual e alcançava o filosófico. As personalidades ofereciam seus contornos e os primeiros passos para o conhecimento disparavam-se com teoria e divindade doadora de sentido, que sem conceito de fim, sem significado, se sustentavam no belo. A imaginação disparava na busca das formas fugidias sendo impossível estabelecer qualquer definição. E esta impotência da razão transformava-se em ternura exótica. Não se despediam, debandavam, não sem se espreitarem com o sistema nervoso em frequência desencadeante da acção. O desejo era de unidade, mas os receiosos passos contrariavam o alado e rechonchudo deus que manejava impunemente o seu arco e flecha.


quarta-feira, maio 30, 2007

ANTROPOFAGIA TROPICAL

II

O encanto emudecera-os e ricamente preenchidos de nada, engatilhavam lembranças minuciosas sobrevalorizadas pela emoção de uma memória, uma música tocada de saber, uma continuidade anunciada se desdobrando em palpitações solicitantes de uma morada, uma habitação apropriada para a experiência de um colapso, uma perda próxima do controle, que envolve sofrimentos e danos, riquezas e tronos. O novo hospedeiro habitaria doravante ambos os corpos, se misturando com as individualidades de cada um para gerar situações de espanto, de jogo, de vida. Aquela tez mediterrânica de andar indolente e olhar atento provocava-a deixando-a em suspensão a respeito da objectividade das coisas. Por instantes esqueceu a funcionalidade da caneta, da cadeira, da roupa que vestia e das soluções quotidianas na sua relação efectiva com o mundo. Um frio não meteorológico, não proveniente das condições físicas, a invadira promovendo-lhe uma sensação de transporte involuntário. Sentia-se perdida, não funcional, tolamente apaixonada com um futuro que emergia numa colecção de decisões incertas a promoverem um sentimento confuso, perda de identidade, um instante de morte.
As mãos inertes caíram sobre a mesa de fórmica barata num gesto religiosamente doado e bem perceptível. Ele tornou a olhá-la e desta vez teve a certeza de uma totalidade que despontava fragmentariamente nítida. Ela muda, paralisada, com o olhar desconcertadamente desviado escrevia-lhe na imutabilidade das horas um testamento afectivo. Ele desarmava-se da sua vivência acumulada e precisava reinventar-se para encontrar a altura do instante diante. Isto implicava uma actividade em parte conhecida, mas na sua porção importante completamente nova e assustadora. Improvisava um sentimento de posse recriando-se como o possuidor a medida da presa. Perdia-se e continuava o seu discurso duplo, um suportado pelos significantes sonoros e outro penetrante, aparentemente mudo, promovendo qualidade ao resto. Sentia-se absolutamente vivo esbanjando o que gostaria de poder controlar e reter. Não queria errar os movimentos ou descontrolar as consequências e acabava por afrouxar a lógica de construção dos conceitos. Ela captara-o e propunha-se raptá-lo para longe de qualquer possibilidade arisca de escape, percebendo a inteligência hábil camaleónica que por sua vez julgava poder auscultá-la. Inconscientemente desejava ser raptado, amordaçado, tratado ao gosto da assaltante convidada
.

sexta-feira, maio 25, 2007

ANTROPOFAGIA TROPICAL

I

As badaladas esperavam com ansiedade a sua sonoridade pontual. Todas as pernas faziam seus movimentos de tesouras apressadas, desvairadas, no percurso das existências sem sentido, a descer e subir degraus que se estiravam em curvas para levar os transeuntes até ao nível do chão ou ao último andar. Muitos fragmentos de intenções, nem sempre totalmente descortinadas, cruzavam-se sem se desmembrarem, nas suas insipiências, pela simples passagem dos outros em situações semelhantes. As intenções são persistentes e, ainda que cegas, vão abrindo caminhos às decisões, que por ventura encontram as suas brechas no mundo dos vivos que se impõem consoante a fibra que a cada um reveste. Assim também procedia o encanto pela atracção do primeiro dia em que o vira, uma sensação também obscura, mas não fraca, que prendia a alma aos encantos daquele novo modo, aquele ser que a envolvia e roubava-lhe as capacidades de defesa. Já sabia do irreversível processo em que fora convocada. Era capaz de reconhecer aquela força que procura pessoas para nelas se instalar dominando sem pedir consentimento, como um vírus que muda de forma e cristaliza ao sentir-se constrangido. O hospedeiro parte para tão perigoso jogo com ou sem o receio que refreia a imaginação peregrina que aliena e desenvolve a sua habitação própria no centro de uma vida fragmentada, impondo-lhe uma unidade de destino ansioso e duvidoso. Ele também a notara com o sabor que só a tropical coincidência afectiva poderia proporcionar, e intensificando a prosa com um dinamismo inesperado, uma força extra que acompanha uma maquinação desconhecida a preparar a sua duração, as suas modulações, a sua cadência, a sua estadia. Ela não lhe passava despercebida, e os olhares, forçosamente esparsos, denunciavam, pela proeminência da sua qualidade, o susto, o inesperado. A possibilidade com suas asas informes inquietava duas pessoas até então desencontradas, separadas, problematicamente sós. O interesse redobrava a emoção e o silêncio catalizava o entorpecimento, que só quem o vive pode comunicar sem palavras, sem gestos, sem nada. Como se algum deus se apossasse do fascínio de duas pessoas despreparadas para tal confronto e então, com sarcasmo, as colocasse à mercê de um sentimento primitivo, anterior ao pensamento, desconcertantemente manifesto.

segunda-feira, maio 14, 2007

Ibiza, 1987/88.

sexta-feira, maio 11, 2007

Gato de veludo

terça-feira, maio 08, 2007

Salvador-Ba, maio 1980

sexta-feira, maio 04, 2007


IATE CLUBE DA BAHIA

NAVEGAR É PRECISO!

O MAR E O CANAVIAL

João Cabral de Melo Neto

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

sexta-feira, abril 27, 2007

segunda-feira, abril 23, 2007

É preciso, no entanto, que nos mitos bem compostos não seja o acaso a determinar o seu começo ou o seu fim, e decididamente, os mitos devem ter uma extensão adequada à apreensão da memória. E tendo em conta a Memória, Menemosine, mãe das Musas, a tragédia deve ser extensa sem perder de vista a sua apreensão e nesta extensão estar dado o transe da infelicidade à felicidade ou, o que é o mais das vezes a passagem da felicidade à infelicidade. A unidade do todo da tragédia é conferida pelas acções unas e completas, pela imitação correcta dos mitos, de modo necessário, influenciando o todo. Sem unidade não poderia haver tragédia, pois também a unidade pertence ao herói, no modo como se sente a si próprio, sua atmosfera trágica advém de não ter muitas saídas, pois sua autenticidade não o permitiria. A acção inteira e completa deve ter princípio, meio e fim. Pois é enquanto organismo vivo que produzirá prazer. A verosimilhança e a necessidade na sucessão das acções são determinantes na plausibilidade do poema, na sua universalidade. As acções simples não contêm nem peripécia nem reconhecimento na mudança de fortuna. A acção complexa, por sua vez, é aquela que as contém. Aristóteles não descura a causalidade implicada na conexão dos factos. O acaso aqui não é apreciado se utilizado sem a devida pertinência, revela a falta de talento do poeta. O reconhecimento é a passagem da ignorância para o saber, e através desta passagem revela-se ou não a genialidade poética. Não devo deixar de dizer que uma tragédia deve suscitar o terror e a piedade, além do prazer que lhe é próprio, no uso artístico dos dados da tradição. Uma tragédia deve utilizar apenas um mito, uma epopeia pode utilizar vários. É o maravilhoso na ordem do inteligível, do racional, ao contrário do que se passa na epopeia. Aristóteles cita Homero, em relação à perseguição de Aquiles a Heitor, onde um apesar de ser mais veloz do que o outro não o consegue apanhar[1]. Situações destas são de evitar na tragédia. Se houver algo de irracional, que este algo se encontre fora da representação e quanto a isto, menciona a ignorância de Édipo em relação à morte de Laio. A tragédia também se diferencia da comédia, pois a primeira trata assuntos elevados como a epopeia, mas a comédia de assuntos torpes, o ridículo…e tem origem distinta. Aristóteles parece dar de forma nítida a superioridade poética a tragédia, mas Schiller[2] aponta alguma problematicidade, quando se trata do tratamento do objecto, está de acordo com Aristóteles, mas se voltar-mos a atenção para a exigência do sujeito mais importante, a resposta penderá sobre o sujeito em causa, o próprio poeta. O poeta trágico transporta o seu objecto, o cómico tem em contrapartida, de manter o seu num plano esteticamente elevado através do seu sujeito. Aquele pode tomar um impulso, para o que precisamente não é necessário fazer muito; o outro tem de permanecer igual a si próprio, tendo portanto de já estar lá, de estar em casa, aí onde o outro não consegue chegar sem um ímpeto…por leveza e permanência. No primeiro a liberdade vem de um impulso exterior, divino, no segundo há uma liberdade própria, tratando o objecto da comédia de forma teórica, precavendo-se contra o pathos e entretendo o entendimento. O autor trágico, por sua vez, defende-se contra a reflexão serena visando despertar o interesse do coração. Schiller em parte concorda com Platão, quando vê qualidade de vida no encontro com contingências, e não com destino. Schiller aponta para uma ironia, a de poder rir com as incongruências em vez de encolerizar-se ou chorar por um mal momento[3].
A origem do nome tragédia pode ter uma causa imaginada por Eratóstenes. Dioniso teria ensinado a Icário[4] o cultivo da vinha, um bode comeu dela e então o animal foi sacrificado e os vinheteiros teriam dançado e cantado sobre a pele cheia de vento do animal, e quem não caísse recebia a carne e vinho. O coral era TRUGOIDIA, relativo a vinho novo, e a denominação TRAGOIDIA, por dizer respeito a um TRAGOS, bode, o prémio. Eratóstenes (275-195) era discípulo de Calímaco, poeta, e seu sucessor enquanto director na biblioteca de Alexandria.
[1] Homero, Ilíada Canto XXII 199-201
[2] Schiller, Sobre Poesia Ingénua e Sentimental § 56
[3] O poder do riso teria sido tratado por Aristóteles, em obra perdida, tese de Umberto Eco, em O Nome da Rosa. O tema foi recuperado por Bergson, na obra O Riso.
[4] Sousa, Eudoro, Téspis, Origem da Tragédia na Ática, INTRODUÇÃO À POÉTICA, Imprensa Nacional-Casa da Moeda: Icário era uma cidade na Ática, segundo Téspis. Seus habitantes segundo Eratóstenes, foram os primeiros a dançar em torno do bode.
Sansão e Dalila

Como é bom ter macacos no sótão!!!

terça-feira, abril 03, 2007


§1. O mito enquanto função da poesia tanto na tragédia como noutras formas literárias.
Para se compreender ou tentar auscultar o dionisíaco na tragédia grega sinto a necessidade de introduzir o leitor, não o iniciado, mas o interessado em geral, à implicação dele com os vários momentos da realidade grega no seu dia-a-dia, fonte do homem comum e fonte do poeta, que é o homem comum, por um lado, mas não só, já que é aquele que escreve o que vê, que sente e quer reter o momento presente, o momento que passa, enfim, expressar.
O que subjaz e precede a poesia, pois remete para uma origem mais remota, é o mito, este deixa de ser uma esfera exclusiva dos deuses e heróis e entra no quotidiano dos gregos, pela rememoração de um acontecimento heróico que é o equivalente a uma façanha que agudiza, no homem, o poder de apropriação de uma coragem ou uma atitude invulgar, que dará espaço para uma modificação do sujeito em relação à sua própria vida. O mito é também uma forma velada de dizer verdades fundamentais e de apresentar o real de modo a perpetuar um princípio de transformação naquele que com ele convive, que o escuta ou o vê representado. O mito tem um sentido que vai muito além do imediatamente expresso, alcançando uma relação do sujeito com o que é profundo e oculto, podendo interferir na esfera das reacções fundamentais, como a própria actividade do sujeito e a esfera da vontade, do querer… A mitologia grega apresenta-se como um conjunto de narrativas maravilhosas de feitos de deuses e heróis da Grécia antiga e propagou-se entre os séculos IX e VIII a.C.
O mito opõe-se ao logos, pois um é da ordem da imaginação sob o sopro da fantasia, mas completa a linguagem neste próprio entrelaçamento com o logos. Por exemplo: A palavra junta-se com outras para formar uma síntese que determinará o sentido e para desocultar algo, trazer algo à presença. Como diz Aristóteles
[1], o substantivo ligado ao verbo traz à lucidez algo determinado, antes oculto, pela coincidência e dissociação operada na síntese, que por sua vez vai operar uma nova síntese entre a lucidez e o discurso, falado ou pensado e, neste processo, o pensado volta-se para outras instâncias mais profundas concentradas nos mitos. Este processo pode continuar a operar-se na vida de um grego e então as constantes sínteses penetram a existência de um grego tornando-a exuberante. O logos é o raciocínio e pode pretender convencer, podendo ser verdadeiro ou falso, podendo querer, deste modo, algo para lá de si, um engodo ou a verdade. O mito não tem outro fim senão ele próprio. A lucidez, pela articulação entre pensamento e linguagem, cria o mito e serve-se dele para compreender a si própria, por um envolvimento que retorna e permite o auscultar da lucidez em instâncias mais profundas. A crença neles é um acto de fé e diz respeito à sua beleza, sua força no maravilhoso e verosimilhança. O mito atrai todo o irracional que fica de fora do pensamento humano, deste modo encontramo-lo impregnando nas actividades do espírito habitável fortemente pela arte. O mito é algo de essencial para um grego, tão essencial ao pensamento deste como o Sol ou o ar que permitem a própria vida, para falar como Pierre Grimal[2]. O mito tem uma vida própria que advém desse seu entrelaçamento entre o coincidente e o dissociado, contradição que gera fertilidade de pensamento que cria vida. A vida própria do mito circula entre a razão, a fé e o jogo, articulando um modo de conhecimento susceptível de libertar o desconhecido que habita o humano e o move, deixando à parte racional um pequeno âmbito de manobra que se quer dominante, mas que acaba por sucumbir porque dirige o desconhecido, portanto não dirige ou o faz por pouco tempo e até certo ponto. Graças ao mito os gregos deram vazão à reflexão e graças a ele a poesia permite-se transformar-se em sabedoria. O poeta é aquele que capta e escreve primeiro, registando desta forma algo que por ele passa, que, se importante, volta a ser usado por quem lê. O mito diz respeito à composição dos actos e é como que a atmosfera essencial, a alma da tragédia. O talento do poeta está em utilizá-lo com a marca da sua genialidade. O mito tem um longo percurso a percorrer e um longo tempo, não nasce como um conjunto organizado, mas cresce ao acaso, como um ser da natureza. Os gregos tinham mitos para a criação do mundo e mitos para o nascimento dos deuses e foi um poeta, Hesíodo[3], o primeiro a se preocupar em reuni-los. Antes dele, Homero[4] enriqueceu e educou os gregos nas suas narrativas heróicas, primeiras fontes míticas e literárias do pensamento ocidental. É de Homero que o homem grego herda a divisão do mundo em dois cenários onde o superior dá sentido e significado ao que ocorre no mundo inferior.
O carácter essencial do mito é o seu fraccionamento, recobre muitas realidades da vida de um grego e, de facto, é o resultado de uma longa evolução das aspirações, medos, heroísmos que jorram da natureza da alma humana. O mito enquanto imitação de uma acção na tragédia, deve imitar, segundo Aristóteles, as acções unas e completas com acontecimentos em conexão tal que tenha uma relação directa com o todo, a unidade da tragédia. O mito contém uma plasticidade de se moldar à vivência humana de modo tal, que pode se transformar numa epopeia, numa tragédia, ou outro género literário, e também numa revelação mística. Os mitos alcançam vida própria permitem-se variações e não raramente, entre os gregos, ganham um estatuto de um organismo com pulsações e metamorfoses incessantes. Imitar é congénito no homem
[5] e no próprio vocábulo imitar está implicado o mito assimilado. E é segundo Aristóteles por imitação que se apreende as primeiras noções e nela há comprazimento.


[1] Aristóteles, De Interpretatione
[2] Grimal, Pierre, Mitologia
[3] Hesíodo, Teogonia
[4] Homero, Ilíada e Odisséia
[5] Aristóteles,Poética,IV-4